Renata Pietro (Coren-SP) conta dificuldades na disrupção de cuidados com o paciente

Em mais uma entrevista para a série “Transformação digital na saúde”, a RedFox conversa com Renata Pietro, presidente do Conselho Regional de Enfermagem (Coren) do Estado de São Paulo. O tema da vez é a tecnologia na entrega de cuidados com o paciente.

Pietro conta as dificuldades e gargalos do setor rumo à disrupção dos processos e como a capacitação de profissionais é importante para esse cenário. Para ela, a transformação digital está diretamente relacionada à melhoria da qualidade dos serviços.

“Eu acredito que transformação digital é tudo aquilo que vem de encontro com o que o gestor busca para melhorar as suas práticas. Tudo que podemos colocar hoje no mercado para melhorar o desempenho da equipe e o alcance dos serviços e que possa gerar uma qualidade e efetividade é considerado uma transformação digital”, diz.

Mas o que atrapalha os gestores a adotarem as tecnologias no Brasil? Confira a seguir os principais gargalos apontados pela diretora do Coren-SP para a disrupção dos cuidados com o paciente!

Barreiras culturais

Renata acredita que um dos principais empecilhos para a adoção de tecnologias na enfermagem brasileira é a cultura do setor. Para ela, as instituições precisam ser mais ativas na busca por soluções tecnológicas que mudem os processos.

“Acho que a grande dificuldade é colocar um pouco mais de iniciativa para mudar o processo de trabalho. Quando pensamos em toda essa tecnologia, temos menos de 40% da indústria trabalhando esses dados. Quando a gente fala em digitalização, todo o cenário geral ainda é muito lento aqui. A gente ainda padece um pouco dessa transformação e desse desenvolvimento”, contextualiza.

Ainda na cultura, ela reforça a importância de olhar para os profissionais, pois eles também estão inseridos no ciclo. O problema é a forma como eles se relacionam com cada instituição.

“O nosso profissional muitas das vezes tem mais de um vínculo empregatício e cada empresa tem uma cultura que determina o serviço. Então, temos muitas barreiras para vencer para conseguir colocar um serviço que vá automatizar ou modificar o desfecho frente ao cuidado”.

Necessidade de capacitação profissional

Aproveitando o gancho, há mais uma questão que envolve os profissionais na melhoria dos cuidados com o paciente: eles precisam de capacitação constante para acompanhar as novidades e dinâmicas do mercado, bem como as novas tecnologias.

 “Nós precisamos capacitar essas pessoas, precisamos ter colaboradores capacitados para trabalhar esse cenário. A qualificação do profissional é um dos gargalos”, aponta a presidente do Coren-SP.

“No Coren-SP, nós temos uma unidade que se chama Coren Educação, onde promovemos estratégias de treinamento e capacitação para a equipe e profissionais de enfermagem, sejam eles enfermeiros, técnicos ou auxiliares. Cada vez mais, a gente vem trazendo um olhar para mudar o cenário cotidiano da assistência, porque isso merece ter uma visualização e um desenvolvimento diferente com melhores resultados para o paciente”.

Falta de acesso por distância

Ainda há muitas instituições que não conseguem adotar tecnologias devido às questões de localização. Por estarem em locais de difícil acesso, as novidades simplesmente não chegam, dificultando a qualidade do trabalho e do atendimento.

“[O] gargalo é colocar um serviço que traga qualidade e segurança para o paciente e também para a equipe que está ali trabalhando com ele. […] Se nós pensarmos em uma tecnologia mínima, uma pulseira de identificação que custa R$ 0,10, quantos serviços em nosso país ainda não conseguem colocar esse tipo de estratégia?”, questiona Pietro.

Para contextualizar esse cenário, ela toma como exemplo a prescrição informatizada. É uma tecnologia que apura melhores resultados nos cuidados com o paciente, ajudando o trabalho dos profissionais.

“Nós sabemos que uma prescrição informatizada reduz 70% as chances de um evento adverso associado a uma interação de farma. Muitas instituições ainda não conseguem ter uma prescrição informatizada. O desafio ainda é muito grande por conta de o nosso país ser continental. Isso dificulta muito o trabalho da enfermagem”.

Dificuldade de investimento

E um último problema que Renata cita é o próprio modelo do sistema de enfermagem que temos no Brasil. Ela acredita que o setor ainda é muito segmentado e fragmentado, focando muito na questão de custo e prazo de implementação.

“Acho que o mercado hoje está muito voltado para um modelo médico-cêntrico onde você tem as instituições trabalhando como uma grande empresa, muito preocupadas com a questão de prazo e, obviamente, como isso impacta de forma orçamentária”, descreve.

Porém, a tendência para a diretora do Coren-SP é que os cuidados com o paciente comecem a ganhar mais destaque nesse cenário. Com isso, esse gargalo para a adoção de novas tecnologias vai precisar ser repensado em breve e, quem sabe, superado rumo a uma cultura mais aberta.

Confira a entrevista completa com Renata Pietro no vídeo a seguir:

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