Kleber Fernandes (CRF-SP) explica desafios tecnológicos para o transporte de medicamentos

Se você acompanha o nosso blog com frequência, já deve ter visto a nossa série “Transformação digital na saúde”. No terceiro episódio, a RedFox conversa com Kleber dos Santos Fernandes, coordenador de Transportes e Distribuição do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), sobre o uso de tecnologia no transporte de medicamentos.

O setor busca as inovações para resolver questões importantes na logística farmacêutica, como aponta Fernandes. “Se eu tivesse que fazer uma lista de desafios, escolheria a temperatura no transporte e distribuição, a logística reversa de produtos pós-consumo e a rastreabilidade”.

Vamos entender como esses tópicos se relacionam com a tecnologia para transporte de medicamentos?

Temperatura dos medicamentos

A qualidade dos medicamentos depende muito da manutenção de suas propriedades químicas.  Itens como a iluminação e a umidade no transporte são pontos que afetam a sensibilidade desses produtos, mas são fáceis de contornar. Já a temperatura exige uma atenção especial.

“Hoje se trabalha com caminhão refrigerado, que controla a temperatura de maneira muito simples. Temos também caixas térmicas de excelente qualidade para a cadeia fria de 2 a 8 ºC, como as vacinas. O grande desafio é a temperatura entre 25 a 30 ºC no transporte”, afirma Fernandes.

Para ele, o cuidado térmico é uma tendência nas preocupações de logística farmacêutica. O mercado já conta com soluções para manter a qualidade no transporte de medicamentos, como softwares e sensores para monitorar e controlar a temperatura à distância. Nesses sistemas, as notificações podem ser acessadas via smartphone.

Porém, o coordenador de Transportes e Distribuição do CRF-SP ainda enxerga um problema nesse cenário. “Temos sensores integrados a um web service que permitem monitorar a temperatura através de iscas ou data logs nos caminhões ou nas cargas. Temos também equipamentos refrigerantes muito bons pra tecnologia integrada nos veículos, mas isso tudo ainda é muito caro”.

Ou seja: os esforços em relação à temperatura precisam focar em encontrar formas acessíveis de realizar um transporte de medicamentos apropriado às propriedades químicas.

Logística reversa de produtos

A logística reversa é responsável por retornar os medicamentos não utilizados pelos usuários de forma consciente. Há campanhas de conscientização para que eles não sejam depositados no lixo comum, mas elas não são suficientes.

Kleber ressalta inclusive a existência da Política Nacional de Resíduos Sólidos para combater os problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes dos depósitos de materiais. Porém, a questão dos remédios ainda está solta.

“A 12.305/10 é uma lei de 2010. Cada estado atua de forma distinta, mas não temos um programa nacional de recolhimento de medicamento pós-consumo. O consumidor descarta as caixas no lixo comum. Um desafio que temos é criar um programa de logística reversa estruturado de conscientização para que as pessoas não descartem o medicamento em qualquer local.”, contextualiza.

Fernandes enxerga um campo com muito potencial para ser explorado no tocante à tecnologia. Para ele, o mercado farmacêutico tem potencial para propor soluções inteligentes que incentivam a prática da logística reversa, mas ainda não se moveu como deveria.

“Não existe tecnologia para isso ainda. A logística reversa é uma folha em branco, com um campo vasto pra ser explorado. Essa é uma boa oportunidade para os profissionais da área farmacêutica”, opina.

Rastreio de produtos

O último ponto que Kleber explora é o rastreio no transporte de medicamentos. Existe uma necessidade de identificar a localização dos produtos ao longo da cadeia logística, desde a obtenção da matéria-prima até a chegada ao consumidor final.

“Dentro do segmento farmacêutico, a rastreabilidade dos dados é o que tem mais foco nas discussões. Saber como e onde o medicamento está na cadeia é um desafio muito interessante. A gestão da informação, a captura de dados e a rastreabilidade são as principais tendências na transformação digital”, ele aponta.

Segundo Fernandes, o processo tecnológico esbarra com força na questão da localização e das condições dos medicamentos. A informação precisa ser compartilhada com a vigilância sanitária, com os fabricantes e com os órgãos reguladores.

Com isso, a logística começa a investir na estratégia de serialização dos produtos para facilitar a identificação. “Uma caixa de medicamento que sai da indústria vai ter o seu lote e cada unidade vai ser serializada. A gente vai saber exatamente qual foi a unidade que chegou para o consumidor. Isso é um projeto muito robusto, mas já há várias empresas com soluções e tecnologias para fazer isso. Mais de 50 países no mundo trabalham com serialização de medicamentos e o Brasil também está caminhando para isso”, diz Kleber.

A expectativa é que o processo de serialização favoreça a produtividade do setor. E esse ponto será muito importante para a questão da economia, como contextualiza Fernandes.

“Se eu conseguir ler todos os seriais, não vou ter nenhuma perda de rastreabilidade.  Mas empresas que não investem em tecnologia talvez tenham que ler a caixa, seja na unidade ou na full Box. Assim, eu posso ter uma perda de produtividade e isso reverte no bolso do próprio consumidor”.

Os três tópicos abrem portas para resolvem os entraves do transporte de medicamentos a partir de tecnologia. Se você se interessou pelo assunto, pode ver a entrevista completa com Kleber Fernandes no vídeo a seguir!

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